Eu estava na cozinha preparando um “sudado de mero no molho de cerveja”, quando meu sogro nos deu a notícia da tragédia no Haiti. O catastrófico terremoto de 7 pontos na escala Richter deixou milhares de vítimas no país mais pobre da América. Um hospital, a sede da força de paz da ONU e o palácio presidencial foram parcialmente destruídos. “È uma grande catástrofe”, disse o embaixador haitiano, que pediu ajuda internacional para minimizar os danos.

Lembrei que em 2008 conheci uma vocacionada que estava muito feliz em servir como missionária no Haiti. Passaram dois anos e não tive mais contato pessoal com ela, mas soube por terceiros que conseguiu ajuda financeira para realizar sua missão. Só não sei em que cidade ela está (mas acho que isso não faz tanta diferença, uma vez que o país é uma pequena faixa numa pequena ilha, e dificilmente alguma porção de terra não tenha sido atingida).

Pensei nas postagens de fim de ano, quando comentei acerca da miséria neste país, e do texto do amigo Márcio de Souza, no qual ele fala dos paupérrimos biscoitos de barro, que tapeiam a fome de milhares de miseráveis haitianos. Os documentários que vi, embora não ofereçam um completo panorama histórico, nos permitem vislumbrar a gritante necessidade daquela gente. São 10 milhões de pessoas, a maioria vivendo em condições subumanas, volta e meia se organizando em conflitos e revoltas que a nada conduzem.

Me entristeceu o fato de que, passado o calor das notícias, o mundo esquecerá novamente os habitantes da ilha, e novamente dará as costas ao povo haitiano. Senti cólera ao pensar nos pastores que encontram neste trágico episódio apenas uma ilustração para o sermão de domingo, que certamente versará sobre o juízo de Deus sobre as nações ímpias. Me irritei com o fato de estar desfrutando um saborosíssimo peixe sudado em salsa de cerveja, enquanto uma multidão de gente permanece soterrada. “Tentei chorar, e não consegui”, exclamou o poeta Renato no final da música Índios. Agora entendo exatamente o significado de cada letra desta frase.

Jesus aclarou que o aumento da impiedade resultaria em frieza de coração. E tantas são as catástrofes, e tamanha é a opressão, e na mesma proporção o abandono e a violência, que acabamos por nos transformar em máquinas sem coração. O clamor do aflito não perturba mais, pouco importa se há um menino dormindo debaixo de viaduto no Rio, ou se no lar do sertanejo se come pirão d’água, e não ligamos se em algum lugar uma garotinha é vítima de incesto.

Leio a notícia da grande tragédia no Haiti, e aos poucos percebo que ela não é tão maior que a nossa tragédia cotidiana, de se esforçar ao máximo para ser aquilo que não somos. “Grande é esse mistério. Digo-o, porém, por causa de Cristo e da igreja”. Se a igreja denominacional é a representação fiel do corpo de Cristo e seus agentes no mundo, então sinto muito, mas Ele anda muito mal representado!

Espero que Cristo salve os haitianos. E oro para que com eles, nos salve também, pois cada vez mais estou convicto de que Jesus precisa salvar os evangélicos.

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